Chuvisco

2015

Desenho direto sobre paredes, impressão em tecido translúcido, sistema de áudio.

 

[Drizzle, Drawing directly over walls, digital print on translucent fabric, audio system]

 

Sesc Carmo, São Paulo, Brasil.

 

Colaboração / Collaborations: Acácia Montagnolli, João Baliero, Leonardo Muniz.

 

Fotos e vídeos / Photos and videos: Acácia Montagnolli.

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O projeto Chuvisco consiste em sobrepor ao espaço de convivência do Sesc Carmo -  um espaço interno, fechado - a imagem de uma chuva, frágil e delicada.

 

A imagem estereotipada da gota de chuva, com resolução gráfica na cor preta, é utilizada para criar uma padronagem - multiplicada em tecidos translúcidos e desenhos realizados à mão sobre paredes - associada ao áudio de uma respiração grave. O padrão está distribuído pelo espaço da sala, enquanto o áudio concentra-se em um fone de ouvido, para ser experimentado individualmente.

 

Deriva de investigação realizada pelo artista sobre o urbanismo na cidade de São Paulo e a sua relação – oportunista e predatória - com os recursos hídricos. Assunto urgente na atual estiagem (período com poucas chuvas) com a ameaça de esgotamento das reservas e crise no abastacimento para o consumo humano, agricultura e indústria. Assunto também presente na memória da cidade, observado em antigos relatos acerca das chuvas em São Paulo, das  tempestades de verão e as consequentes enchentes, antes e depois da canalização de seus principais rios - Tamanduateí, Tietê e Pinheiros – e afluentes. A enchente de 1929, extensamente documentada por fotografias e depoimentos, é um dos muitos exemplos.

 

Embora as canalizações, retificações e galerias construídas para o controle dos rios tenham sido importantes para o desenvolvimento urbano em São Paulo - pois promoveram estratégias de prolongamento da malha urbana, implantação de sistemas viários e de circulação, geração de energia elétrica e drenagem das areas de várzea -, estiveram ligadas à valorização oportunista do solo e consequente apropriação privada de esforços de interesse público, favorável a companhias como a Light e a City, grandes empreendedoras do ramo imobiliário. Estiveram ligadas também à concepções higienistas de controle sanitário em voga na cidade no final do século XIX e início do XX. O Tamanduateí, primeiro a ser retificado, permitiu a integração do rio às atividades do núcleo original da cidade e a transposição do rio rumo à Zona Leste. A canalização do rio Pinheiros, por exemplo, possibilitou a urbanização da parte baixa do bairro e dos terrenos da outra margem em direção ao Butantã, incluindo a area da Cidade Universitária e da Cidade Jardim. Já o Tietê retificado e canalizado permitiu a ocupação territorial de suas margens voltada ao desenvolvimento industrial.

 

O "avesso" deste processo foi a completa anulação da relação dos habitantes com os recursos hídricos da cidade. O imaginário dos rios, das chuvas e das cheias, ficou limitado a um corpo sombrio e indesejável, apenas aparente em momentos calamitosos.