Reminiscências

2015

[Reminiscences]

 

Galeria Tato, São Paulo, Brasil.

 

Curadoria / Curator: Paulo Gallina.

 

 

 

Colaboração / Collaborations: Acácia Montagnolli e João Baliero.

 

Fotos / Photos: Acácia Montagnolli.

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Trabalhos / Works

 

Alvenaria / Masonry, 2014 - 2015

Tijolo de barro com carimbo personalizado / bricks with custom stamp

119 x 125 x 134,5 cm

 

Sem título / Untitled, 2009 - 2015

Impressão sobre papel algodão / print on cotton paper

38,5 x 29 cm

 

Série Alvenaria / Masonry series, 2014

5 desenhos / drawings

Nanquim, caneta hidrocor, lápis oleoso sobre papel / china ink, felt tip pen and oil on paper

48 x 33 cm (cada / each)

 

SOMNUS (Noite São Guálter), 2010

Animação digital com áudio / digital animation with soundtrack

8 min.

Direção / directed by: Renato Pera

Realização / Realization: ZoomB Laboratório Audiovisual

 

Tijolo (O INFINITO), 2014

Tijolo de barro / brick

22 x 5 x 10 cm

 

Desenho: FIG.1 (vidraça) / Drawing: FIG.1 (windowpane), 2015

Papel colado sobre parede vedando uma vidraça / paper adhered directly over architecture sealing a windowpane

5,2 m2 (aprox.)

 

Caixilharia / Framework, 2013 - 2015

Desenho digital, impressão sobre MDF / Digital image, print on MDF

60 x 42 cm (cada / each)

Colaboração / Collaboration: Acácia Montagnolli

 

Fragmento de / Fragment of  Mostruário São Paulo, 2014 - 2015

Bloco de concreto, alumínio, papel / concrete, aluminum, paper

39 x 18 x 39 cm

 

 

Texto Crítico / Critical text

 

Paulo Gallina

Curador / curator

 

Na matéria dura do mundo está contido o infinito. Tudo que existiu e tudo que virá a ser é simplesmente uma combinação fatorial de átomos, ou ao menos é assim que o modelo científico representa o universo material. Essa partícula mínima da matéria não guarda em si traço algum do que já formou. A natureza não tem memória, existindo apenas em um tempo: o presente.

 

Consciente do descompasso entre a matéria do mundo e a memória humana, Renato Pera busca na arquitetura um desenlace que unifique passado e presente. Explorando elementos arquitetônicos com historicidade própria, o artista explicita a única relação possível entre um indivíduo e a memória coletiva humana: a forja cultural.

 

Renato parece inquirir a tradição que construiu o mundo contemporâneo com todos os seus problemas e a inovação incessante que não permite a sedimentação de nada além da informação cotidiana. Da primeira, o artista busca suas intençōes, enquanto, da segunda aprende sobre quando algo é suficiente. Reminiscências é o conjunto de dúvidas e certezas que coletivamente encontramos ou invalidamos durante a criação do mundo contemporâneo.

 

O discurso do artista não se faz por palavras, sendo apresentado por formas. Afinal palavras conformam definições, certezas. Enquanto imagens – especialmente seu conjunto - constróem panoramas sutis sobre o que se entende como o presente e os projetos para  a mudança. Imagens carregam em si as contradições de nosso tempo que poderiam ser suavizadas pelas nuances do discurso.

 

As impressões da série  Caixilharia (2013-2015) apresentam janelas desenhadas ao longo da história do Brasil independente e colonial. Renato reúne nesta série discursos pregressos e presentes sem deixar claro o limite entre passado e futuro – afinal,  a maioria dessas janelas pode facilmente ser avistada em uma caminhada pela cidade. Formas simplificadas tornam-se modelos não apenas sobre a habitação contemporânea, como também sobre o descompasso entre o mundo como ele é e o mundo individualmente internalizado.

 

Consciente da capacidade de falseamento contida no discurso, as obras apresentadas nesta exposição procuram não ser palavra ao sobrepor tempos. Deste encontro reiteram-se os elos entre o passado, dominado pela memória, e o resíduo material deste outro momento – no presente ressignificado, inclusive, através dos novos usos dados a essas estruturas.

 

A literatura afirma que o universo se inicia com a luz ou a poesia, a ciência especula que ele comece da explosão de um ponto onde toda a matéria que existe estaria condensada. Entre desenhos, vídeo, instalação e fotografias Renato parece perguntar, caminhando em paralelo à filosofia de Confúcio, se antes da consciência existiria um começo para as coisas. Seu trabalho parece questionar, enfim, se antes do pensamento já existia o tempo.

 

 

 

[In matter one finds the infinite. Everything that has ever existed and everything that will ever be is merely the total sum of atoms that make up the world. Or, at least, this is what our cientific models assume matter to be. Atoms do not keep the memory of what they previously were. Nature has no memory, it exists only in present time.

 

Conscious of the gap between matter and human memory, Renato Pera, finds in architecture the answer to unify times past and times present. By exploring historical architectural forms the artist exposes the unique relationship between individual and colective memory, in other words, our cultural molds.

 

The artist seems to inquire into the traditions that have forged the contemporary and all its attending problems. Innovation does not allow for anything to stand the test of time, to stand beyond the present. Reminiscences caters on the set of doubts and certanties that we have collectively built to create the contemporary.

 

The artist´s narrative, however, is not made up of words but by form. Afterall, words, aim at certainties while forms and images build subtle panoramas of the present and, perhaps, of our dreams of change. Images are prone to contradiction which can be made less harsh by discourse.

 

The works present in Caixilharia (2013-2015) depict window designs which have been used in Brazilian architecture from its time as a colony through its independence. The series then incorporates the many discourses without ever untangling the margins between present and past -- afterall, one can still see many of these window designs simply by strolling Brazilian cities. Simplified forms become models of thinking about contemporary architecture and housing solutions tell us about the gap between the world “as it is” and a world that has become increasingly subjective.

 

Extremely aware of the power of discourse in masking the truth, Renato Pera´s work tries not to superimpose time frames. From this encounter, links to the past, held hostage by memory and its material residues, are resignified into the present.

 

Literature tells us that the universe begins with light or poetry, science speculates it begins with a bang. In his drawings, video, installation and photography Renato seems to ask, paraphrasing Confucius (551-479 BC), whether there can be conscience before matter. Thus, his work seems to question the possibility of thought before time.]